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Antônio Alves Textos, informações e reflexões

Ensaio

Alegoria do espelho schopenhaueriano

Arte: Gemini (IA) "Todo o mundo visível é apenas a objetivação, o espelho da vontade que a acompanha para o seu autoconhecimento" (W I, § 52, p. 308). Alegoria do espelho schopenhaueriano gostaria de propor um modo de…

Arte: Gemini (IA)

Todo o mundo visível é apenas a objetivação, o espelho da vontade que a acompanha para o seu autoconhecimento” (W I, § 52, p. 308).

Alegoria do espelho schopenhaueriano

gostaria de propor um modo de interpretar a filosofia de Schopenhauer a partir de um experimento mental, em verdade, uma alegoria. Chamo-a de a alegoria do espelho schopenhaueriano, ou o espelho de Schopenhauer. Vamos imaginar que toda a pluralidade do mundo como representação transcorra, em todas as suas ações, lutas, afirmações e negações da vontade, diante de um grande espelho extratemporal, esférico e imóvel. Cada produção da natureza e cada aparência (objetidade da vontade), passando desde as leis da gravidade, eletricidade e magnetismo até as pedras, cristais, penhascos, quedas d’água, plantas, flores, troncos, folhas, animais simples e complexos e, enfim, o ser humano em sua completude moral, sejam suas ações boas ou más, tudo, cada pequena ou grande coisa, transcorre diante do referido espelho. O aparecimento de um duplo conhecimento no ser humano, ou seja, o intuitivo e o abstrato, sendo este último uma potência mais elevada do primeiro[1], deu a ele um poder especial: a capacidade de ser o único entre todas as aparências a de fato perceber e ter a clarividência filosófica (Besonnenheit[2]) de que sua própria vida e todas as ações de todas as outras vidas transcorrem diante do espelho; humano este, que consegue, ver não somente o mundo como representação, mas também o mundo que é refletido no espelho. Assim, no reflexo de cada objeto, luta e afirmação da vida, enxerga uma essência especial condizente a cada coisa: das pedras, dos cristais, dos penhascos, dos animais e de todos os atos. Percebe, pois, que ainda que sejam várias essências, há apenas um espelho que tudo reflete. Não podendo o homem ser o próprio espelho ou ser os seus reflexos, identifica que antes de ser um tal que reflete (caráter empírico) é um tal que é refletido, pois seu reflexo essencial (caráter inteligível) antecede seu corpo. Entende, pois, a completude de uma existência dupla, donde a verdade está não na representação empírica das coisas, mas sim no Em si, ou seja, em seu próprio reflexo. Assim, em sendo um único espelho, compreende que a essência íntima de todas as coisas possuí um parentesco íntimo e universal, pois cada pedra, cada animal e cada ser humano é também uma parte do reflexo geral. Um único espelho, significa, por conseguinte, que há apenas uma única essência, uma única vontade. Ou seja, as aparências na representação são a mera pluralidade das formas (Ideias platônicas) exibidas em uma unidade (o espelho). Os reflexos, portanto, não se submetem ao tempo e nem ao espaço e a harmonia da vontade existe apenas entre as Ideias, nunca entre os próprios indivíduos, entre esses, uma espécie sempre crava os dentes na outra, numa infinda hostilidade. O homem entende, pois, que toda essa circunspecção ocorre de fora para dentro, pois são os seus olhos empíricos que ocupam o mundo como representação, aqueles que querem entender a essência das coisas através da visualização do espelho. Como tal vislumbre nunca é inteiramente possível, mas sempre um tipo de visualização parcial e limitada, ele então chega ao cume de sua intelecção e deixa de olhar os reflexos das outras aparências e por conseguinte o conteúdo de suas essências. Nesse cume intelectivo ele passa a olhar os seus próprios olhos refletidos no espelho. Então, enxerga a sua própria vontade e parcialmente sua própria essência. Assombrado, reconhece agora toda a ignorância em que o restante da natureza se encontra e sente-se mais elevado do que todas as outras aparências; agora, percebe todas suas ações como supérfluas e ridículas, meras cópias da essência verdadeira e bela, sendo essas, primordialmente identificada nos reflexos do espelho. Fixado em seus próprios olhos, quer dominar a si mesmo. Então, passa a vigiar com atenção seus próprios atos, a calcular suas ações, a filosofar e agir conforme seu próprio caráter, lugar e consciência, de tal modo, ele contempla a sabedoria de vida. No entanto, se ele leva esse exercício de circunspecção às últimas consequências, reconhece a profundidade e a intensidade dos sofrimentos alheios como se fossem os seus próprios, e então, voluntariamente renuncia tudo o que transcorre no seu mundo em prol de deleitar-se com o vislumbre das formas essenciais, ou seja, do deleite sereno da assimilação da própria Verdade, ou seja, o Em si das formas que vê estampadas nos reflexos daquele espelho esférico que tudo reflete. Este homem, agindo apenas na finalidade de negar a vontade, transmuta-se no próprio espelho[3] e agora vê o mundo da perspectiva dos reflexos, pois sua individualidade foi diluída no uno e no todo, fechando para si mesmo a possibilidade de que qualquer sofrimento reapareça e arrastando consigo todo o restante da natureza, pois toda ela aguardava pela resignação do gênero humano[4].


Referências

SCHOPENHAUER, A. Metafísica da natureza – Preleções berlinenses. Trad. Jair Barboza. São Paulo: UNESP, 2023.

SCHOPENHAUER, A. O mundo como vontade e como representação. Tomo I, 2ª edição revisada. Trad. Jair Barboza. São Paulo: UNESP, 2015.